Mel Bracarense

 

Meu nome é Mel Bracarense, Coach de Mães com Carreira mas nem sempre foi assim. Vou te contar a minha história.

Sempre tive o sonho de ser mãe e muito antes de me casar já sonhava em ter um filho.

Só que era muito difícil me imaginar sendo mãe com a vida que eu tinha.

Eu me formei em psicologia, desde o início da faculdade trabalhei em Recursos Humanos. RH já foi uma grande paixão.

Como Gerente de Recursos Humanos, fui responsável pela gestão de pessoas e desenvolvimento humano em empresas nacionais e multinacionais por quase 15 anos. Trabalhava em dedicação exclusiva, com jornada de 12 horas por dia em média.

Durante muitos anos me senti extremamente realizada nessa carreira e muito estimulada a me dedicar cada vez mais. Eu vivia para trabalhar. O que trabalhar muito me fazia sentir? Eu me sentia útil, me sentia valorizada e tudo o que eu queria era me sentir assim: útil e valorizada. Só que parecia que nada era o bastante. Eu trabalhava mais e mais. Para me sentir mais útil e mais valorizada. Esses sentimentos me faziam deixar de pensar no que eu realmente queria. Mergulhada no trabalho, não tinha “tempo” de pensar sobre a vida que eu tinha e o quanto ela estava distante da vida que eu queria ter, podendo me realizar no trabalho e podendo também ter tempo para ter o meu filho. Cuidar do meu filho. Ser uma só em equilíbrio na minha vida. Aquele trabalho era uma fuga para mim.

Até que percebi que eu precisava fazer alguma coisa de verdade por mim, pela minha família, pelo filho que eu já queria ter. Afinal, um dia ele iria nascer e não caberia naquela vida que eu tinha o modelo de mãe que eu queria ser…

Não poderia haver uma motivação maior do que um filho para que eu fizesse uma mudança tão grande na minha vida.

A maternidade foi a maior oportunidade que eu tive para me realinhar, para me encontrar, para eu encontrar o meu caminho, a minha realização, a minha missão, o meu propósito de vida.

E foi assim que comecei a sonhar em ter o meu próprio negócio. Estava certa de que em muitos momentos empreender me exigiria ainda mais dedicação e esforço do que trabalhar no mundo corporativo, mas por outro lado era a minha chance de ter um trabalho que me possibilitasse aproveitar de perto os momentos importantes dos primeiros anos de vida do meu filho. Tendo o meu próprio negócio e fazendo os meus horários, eu poderia estar presente em todos aqueles momentos únicos, como o dia em que começou a engatinhar, a comer as primeiras frutas, a dizer as primeiras palavras, a andar… Eu queria muito estar lá em todos esses momentos. E aquela vida de trabalhar em horário integral definitivamente não me permitiria viver a maternidade como eu queria e eu não estava disposta a abrir mão disso.

Pensei em ter vários negócios… Pensei em abrir uma casa de açaí (eu amo creme de açaí), pensei em fazer e vender cupcakes (nem gosto tanto de bolos, mas sempre achei lindos), pensei em várias coisas… Quando pensava, quando me imaginava em outra situação sentia um misto de emoções muito diferentes… Sentia entusiasmo por me permitir me imaginar fazendo algo que nunca fiz e ao mesmo tempo, sentia muito medo, um medo absurdo. Medo de que não desse certo, medo de que desse certo, medo de fazer algo tão diferente do que sempre fiz, medo de abandonar algo que dizia tanto de mim como a minha carreira.

Até que comecei a pensar que eu poderia empreender em algo que eu já sabia fazer, que eu já gostava. Algo em que eu poderia contribuir muito e de imediato. Algo que eu já era especialista e me sentia imensamente segura para fazer.

Assim, busquei mais especializações na área do Coaching, certificações com respaldo internacional e comecei a atender. No início foi muito difícil, já que além do meu emprego passei a me dedicar também aos clientes de Coaching após horário comercial e aos finais de semana. E assim fui percebendo que existia ali uma oportunidade efetiva de iniciar o meu próprio negócio.

O tempo foi passando e cada vez mais a vontade de engravidar vinha com tudo. Começamos a tentar ter um filho. E como aquilo demorou… Parece que em assunto de filho, quanto mais se deseja mais demora! E o meu desejo era infinito… A demora parecia que seria também…

Até que engravidamos. Um sonho! Me senti feliz como nunca havia me sentido antes. A cada dia que passava, imaginava como seria o meu menino lindo já tão amado. Mas ainda não era para ser. Com 12 semanas de gravidez, sofremos um aborto espontâneo. Toda aquela felicidade se converteu em dor e tristeza. Muita tristeza.

E aquela vivência impactou de forma muito intensa o nosso casamento, o nosso relacionamento. Vivemos momentos de muita tensão, de muitas dificuldades e incompreensões. E, assim, fomos nos afastando, nos afastamos e praticamente chegamos a nos separar.

Mas em nome do amor, em nome de algo maior que sentimos um pelo outro, persistimos e ficamos juntos. Aí decidimos que queríamos um filho e dessa vez que fosse pra valer. Para agilizar as coisas (já não aguentaríamos esperar novamente por um ano de tentativas…), procuramos uma clínica muito conceituada especializada em reprodução humana e fizemos uma FIV.

Enfrentamos muitas resistências. Apesar de estamos certos do que queríamos e de que ter um filho naquele momento era uma prioridade em nossas vidas, ouvimos muitos comentários de que deveríamos ter paciência e esperar outra gravidez natural, de que deveríamos adotar se não viesse um filho natural, tudo menos aquilo que tínhamos decidido para a nossa vida.

Encaramos juntos todos os comentários e seguimos em frente. Estávamos juntos, tínhamos um plano lindo e só isso era o que nos importava.

O tratamento de fertilização se deu com sucesso. Engravidamos na primeira tentativa. No início, muito medo. Medo de que a história se repetisse. Medo de perder de novo o que ainda não tínhamos.

Passaram-se os três meses e aí começamos a curtir a gravidez como merecíamos. Nosso menino Miguel estava a caminho. E o esperávamos com todo o amor que uma mãe e um pai podem sentir por um filho.

Continuei trabalhando da mesma forma, cerca de 12 horas por dia e o barrigão ali, crescendo, crescendo… Eu passava muito bem, não tive um único dia de enjoo.

Até que no sexto mês de gravidez, numa segunda-feira véspera de feriado do dia do trabalhador, estava em uma reunião na sala do presidente da empresa, mais de 7 h da noite e vi que não estava me sentindo bem. Continuei na reunião e o mal estar foi só piorando, piorando.

Enfim, eu passei mal, liguei para o médico, ele quis me ver e a partir daí me recomendou repouso absoluto. Naquele dia começaram as contrações que poderiam causar um parto prematuro.

Segui à risca todas as recomendações médicas. Repouso absoluto. Medicamentos diários. Exames especiais para acompanhar o desenvolvimento do bebe e as minhas condições de levar a gravidez até o fim.

Para não ficar afastada do trabalho, fizemos uma negociação para que eu continuasse trabalhando de casa, em regime home office, basicamente pelo celular e trocando mensagens pelo Black Berry disponibilizado pela empresa. Eu trabalhava deitada, o corpo parado e a mente em movimento.

O último trimestre da gravidez foi todo de repouso. Nos últimos 10 dias antes da previsão do parto me afastei do trabalho. Começou a valer a licença médica. A partir daí, só faltava esperar o meu bebe tão amado chegar.

Logo quando ele nasceu vivi emoções muito grandes. Ao mesmo tempo em que senti uma gratidão imensa pelo bebe lindo que eu tinha nos braços, sentia um pavor enorme, uma preocupação desmedida se eu seria capaz de cuidar de um bebezinho tão frágil.

Ao mesmo tempo que eu estava me sentindo muito realizada pelo nascimento do meu filho e cheia de vontade de ser a melhor mãe do mundo, o meu cansaço era tão grande que muitas vezes tudo o que eu queria mesmo era chorar abraçada com a minha mãe.

E assim foram passando os primeiros dias e os primeiros meses com o meu filho amado. Eu cuidava pessoalmente de tudo dele. Meu marido, que sempre foi um paizão, participava bastante mas eu que estava ali, 24 horas por dia, dedicada àquele bebezinho tão pequenino.

O tempo foi passando e chegando o fim da licença maternidade. Eu senti um misto de duas emoções bem diferentes.

Por um lado eu tinha pânico de pensar como seria deixar o meu bebe aos cuidados de outras pessoas. No último mês de licença, chegamos a experimentar a adaptação a um berçário e duas babás. Aquela decisão parecia a mais difícil da minha vida. A culpa me consumia.

Por outro lado, tudo o que eu queria era sentir novamente o gosto de ser eu. Voltar a trabalhar, ver gente, me arrumar e sair todos os dias. Sim, eu desejava isso e me sentia muito culpada por isso também.

Se por um lado eu precisava voltar ao trabalho – também por apelos financeiros – por outro eu sentia que não mais cabia naquela vida. Eu não era a mesma pessoa e certamente não seria a mesma profissional.

Durante o período da licença, tive algumas conversas com o presidente da empresa em que trabalhava. Ele me dizia que tinha dúvidas sobre a minha intenção em voltar ao trabalho. Eu dizia que sim, que voltaria e, de fato, voltei, pelo compromisso firmado. Mas a verdade é que o meu coração já não estava ali.

Depois de uma semana de trabalho, muita angústia e um grande sentimento de inadequação, no dia 02 de janeiro de 2014 fui demitida. No Brasil é muito comum ocorrerem demissões após o período de licença maternidade, entretanto, eu realmente não esperava que acontecesse comigo, apesar de eu não estar mais feliz ali. Eu nunca havia sido demitida em toda a minha vida e naquele dia fui demitida!

Eu sofri muito com aquilo. Cheguei em casa, conversei abertamente e longamente com o meu marido e tive febre. Muita febre. Parecia que até o meu corpo estava sentindo o fogo da mudança me desafiando.

Estava ali a minha oportunidade de mudança. Desafios normalmente aparecem em nossas vidas como um convite para corrigirmos nossa rota. E eu precisava naquele momento corrigir a minha. Inspirada em uma frase de Anthony Robbins que diz que “Sucesso sem felicidade é fracasso”, fui buscar a minha felicidade.

Aproveitei boa parte de 2014 para viver intensamente a maternidade. Acompanhei diretamente o desenvolvimento do meu filho durante aquele ano, eu mesma fazia a comida dele, cuidava das roupinhas, fazia brincadeiras, vivi intensamente a maternidade como havia sonhado. Mesmo as pessoas mais próximas se surpreendiam com a minha dedicação ao papel de mãe que se desenvolvia ali. Encarei aquele período com toda a motivação com que se realizada um trabalho que se ama fazer. E voltei a atender como Coach no turno em que meu filho estava na escola, já com 18 meses de vida completos. Assim, trabalhei duro para conseguir equilibrar as duas coisas, manter um tempo para estar com ele, acompanhar o desenvolvimento dele e ter um período do dia também para trabalhar, para me realizar profissionalmente e financeiramente. Como aquilo era desafiador. Quando estava dedicada ao meu filho, ficava pensando no que eu queria fazer no meu novo projeto. Quando estava dedicada a minha carreira, ficava pensando no que eu poderia perder por não estar com o meu filho. Precisei me organizar, definir uma agenda, horários e prioridades.

Fui aplicando em mim muitos conhecimentos que eu havia acumulado nos últimos 15 anos, sobre desenvolvimento humano, performance, produtividade e gestão do tempo…

No início foi muito difícil alavancar financeiramente e isso pesava bastante. Sempre fui muito independente financeiramente e retomar minhas atividades profissionais também seria libertador nesse sentido.

Nessas horas, muitas pessoas chegaram até a mim e sugeriram que eu voltasse para minha carreira de Gerente de RH, que me faria retomar minhas condições financeiras de imediato. Outras diziam que eu deveria estudar para um concurso, já que eu queria trabalhar menos horas por dia para ficar com o meu filho e ainda teria estabilidade.

O que nenhuma dessas pessoas entendia era que nada disso era prioridade para mim, nem o dinheiro e nem a estabilidade. Me senti sozinha muitas vezes. O que eu queria mesmo eu não poderia encontrar em mais nada que não fosse o meu verdadeiro propósito de vida, que era viver de algo que eu amo e ser remunerada por isso. E através desse trabalho, ajudar outras mulheres a se descobrirem em suas paixões profissionais e construírem o equilíbrio perfeito entre o seu trabalho e o seu tempo para curtirem os seus filhos.

E apareceram convites de emprego. Propostas boas financeiramente, mas completamente desalinhadas ao meu propósito de vida e carreira. Cheguei a ir a uma entrevista e, ao sair de lá, ter uma crise de choro por perceber o quão frágil eu havia sido por comparecer a uma entrevista de uma emprego que eu não mais queria para a minha vida. Ali vivi mais uma oportunidade de confirmação. Eu disse que não queria aquele emprego.

A partir dali, vi que precisaria ir fundo no meu novo projeto. Assim, procurei um curso de aperfeiçoamento chamado Profissão Coach. Aquilo foi um clarão naquele momento da minha vida. Na medida em que retomava a minha carreira em uma nova roupagem, em um universo muito mais alinhado comigo, com a minha nova vida, com a maternidade, percebi que eu queria ajudar também um público bem mais específico.

Já estava ali, a minha frente, a minha missão, o meu propósito de vida. Ajudar mulheres a se redescobrirem em suas carreiras, identificarem a carreira dos seus sonhos e conseguirem conciliar sua realização profissional com a maternidade, tendo mais tempo para curtirem os seus filhos. Exatamente como aconteceu comigo, eu desejei ajudar outras mulheres a fazerem essa conquista.

Hoje me sinto muito realizada por fazer algo que amo, que me realiza de verdade e ter bastante tempo para curtir o meu filho amado, para acompanhar cada fase da infância dele. E, mais do que isso, ser um exemplo para ele de que é possível viver da minha paixão, do meu talento e chamar de trabalho o meu verdadeiro propósito de vida. E se eu posso, ele também poderá.

Me sinto privilegiada por poder ajudar tantas mulheres a encontrarem o seu caminho também.